segunda-feira, abril 16, 2012

ABC - Luís Fernando Veríssimo


Sinopse

A dobradinha não podia ser melhor. De um lado, as histórias de um mestre do humor. Do outro, o olhar perspicaz de uma das mais talentosas escritoras do país, especialista em literatura para jovens. Ana Maria Machado, leitora de carteirinha de Luis Fernando Veríssimo, releu durante meses textos do autor, e preparou uma seleção de crônicas capaz de despertar nos estudantes o prazer e a paixão pela leitura. O resultado pode ser conferido neste livro, uma rara e feliz combinação de talentos, indispensável para a sala de aula. Dessa vez, o autor aparece sentado num banco escolar, arremessando um aviãozinho de papel. A seleção de Ana Maria Machado em Comédias para se ler na escola permite ao leitor mergulhar no universo das histórias e personagens de Veríssimo prestando atenção nos múltiplos recursos deste artesão das letras. A habilidade para os exercícios de linguagem ou de estilo pode ser conferida em crônicas como "Palavreado", "Jargão", "O ator" e "Siglas". A competência para desenvolver as comédias de erro está presente em "O Homem Trocado", "Suflê de Chuchu" e "Sozinhos". A mestria para criar pequenas fábulas, com moral não explícita, aparece em "A Novata", "Hábito Nacional" e "Pode Acontecer". A aptidão para resgatar memórias é a marca de "Adolescência", " A Bola" e "História Estranha". E, por fim, o dom para abordagens originais de temas recorrentes revela-se em "Da Timidez", "Fobias" e "ABC". A originalidade e o humor de Veríssimo funcionam como o melhor antídoto para quem não gosta de ler, ou melhor, para quem ainda não descobriu o prazer, a aventura, que um livro pode proporcionar.
Olá, pessoal!Comédias para se ler na escola trata se de crônicas escrita por Luis Fernando Veríssimo organizado por Ana Maria Machado. Eu gostei de todos, mas os meus favoritos são “Palavreado”, “Defenestração” e “ABC” e por serem curtinhos optei em vez de resenhar colocar os textos na íntegra a começar por ABC.

               

Quando a gente aprende a ler, as letras, nos livros, são grandes. Nas cartilhas - pelo menos nas cartilhas do meu tempo - as letras eram enormes. Lá estava o A, como uma grande tenda. O B, com seu grande busto e sua barriga ainda maior. O C, sempre pronto a morder a letra seguinte com a sua grande boca. O D, com seu ar próspero de grão-senhor. Etc. Até o Z, que sempre me parecia estar olhando para trás. Talvez porque não se convencesse que era a última letra do alfabeto e quisesse certificar-se de que atrás não vinha mais nenhuma.

As letras eram grandes, claro, para que decorássemos a sua forma. Mas não precisavam ser tão grandes. Que eu me lembre, minha visão na época era perfeita. Nunca mais foi tão boa. E no entanto os livros infantis eram impressos com letras graúdas e entrelinhas generosas. E as palavras eram curtas. Para não cansar a vista.

À medida que a gente ia crescendo, as letras iam diminuindo. E as palavras, aumentando. Quando não se tem mais uma visão de criança é que se começa, por exemplo, a ler jornal, com seus tipos miúdos e linhas apertadas que requerem uma visão de criança. Na época em que começamos a prestar atenção em coisas como notas de pé de página, bulas de remédio e
subcláusulas de contrato, já não temos mais metade da visão perfeita que tínhamos na infância, e esbanjávamos nas bolas da Lulu e no corre-corre do Faísca.

Chegamos à idade de ler grossos volumes em corpo 6 quando só temos olhos para as letras gigantescas, coloridas e cercadas de muito branco, dos livros infantis. Quanto mais cansada a vista, mais exigem dela. Alguns recorrem à lente de aumento para seccionar as grandes palavras em manejáveis monossílabos infantis. E para restituir às letras a sua individualidade
soberana, como tinham na infância.

O E, que sempre parecia querer distância das outras. O R! Todas as letras tinham pé, mas o R era o único que chutava. O V, que aparecia em várias formas: refletido na água (o X), de muletas (o M), com o irmão siamês(o W). O Q, que era um O com a língua de fora.

De tanto ler palavras, nunca mais reparamos nas letras. E de tanto ler frases, nunca mais notamos as palavras, com todo o seu mistério. Por exemplo: pode haver palavra mais estranha do que "esdrúxulo"? É uma palavra, sei lá. Esdrúxula. Ainda bem que nunca aparecia nas leituras da infância, senão teria nos desanimado. Eu me recusaria a aprender uma língua, se soubesse que ela continha a palavra "esdrúxulo". Teria fechado a cartilha e ido jogar bola, para sempre. As cartilhas, com sua alegre simplicidade, serviam para dissimular os terrores que a língua nos reservava. Como "esdrúxulo". Para não falar em "autóctone". Ou, meu Deus, em "seborreia'!

Na verdade, acho que as crianças deviam aprender a ler nos livros do Hegel e em longos tratados de metafísica. Só elas têm a visão adequada à densidade do texto, o gosto pela abstração e tempo disponível para lidar com o infinito. E na velhice, com a sabedoria acumulada numa vida de leituras, com as letras ficando progressivamente maiores à medida que nossos olhos se cansavam, estaríamos então prontos para enfrentar o conceito básico de que vovô vê a uva, e viva o vovô.

Vovô vê a uva! Toda a nossa inquietação, nossa perplexidade e nossa busca terminariam na resolução deste enigma primordial. Vovô. A uva. Eva. A visão. Nosso último livro seria a cartilha. E a nossa última aventura intelectual, a contemplação enternecida da letra A. 
Ah, o A, com suas grandes pernas abertas.

Comprar

48 anos até novembro, paulistana, louca por livros de terror, Thriller psicológico, policial, jurídico... Mas não dispensa outros gêneros. Também apaixonada por filmes e séries.

5 comentários :

  1. Excelente colocação.
    "À medida que a gente ia crescendo, as letras iam diminuindo. E as palavras, aumentando." acredito que essa fase descreve muito as leituras feitas durante a vida. As fases, o gosto literário.

    Quando Veríssimo veio a minha cidade foi no Teatro embaixo da ponte e disse que ali é o lugar mais nobre da cidade, nunca vou esquecer disso.
    Você já leu adaptação de Ana Maria Machado de Sonho de uma noite de verão? Maravilhosa.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Helana!
      Já Sonhos de uma noite de Verão várias vezes e esta adaptação não conheço, vou procurar, obrigada!

      Excluir
  2. Olá,

    Acredita que nunca li uma obra do Veríssimo?! Sempre li algumas crônicas soltas do autor, que são sensacionais, mas não contemplei uma obra em sua grandiosidade. Achei interessante a colocação que você fez em relação as letras. Que aos poucos vamos perdendo o interesse nas letras e também nas palavras. Essa é uma verdade que nunca havia analisado, mas que é uma verdade. Adorei seu texto, ficou sensacional e pertinente!

    beijos!

    ResponderExcluir
  3. Adoro os textos de Luís Fernando Veríssimo! Meus alunos se divertem bastante nas aulas de leitura! Não conhecia esse texto em específico nem sabia desse livro! Mas já anotei o nome, porque pretendo comprar para usar os textos na sala de aula =D

    Super obrigada pela dica!! Vou usar bastante!

    ResponderExcluir
  4. Olá!
    Eu li esse livro há muitos anos e foi até uma recomendação de uma professora e foi uma leitura maravilhosa. A crônica de Defenestração eu também gostava, mas foi muito bom rever ABC. Gostei muito da ideia de colocá-las na íntegra.
    Bjs.

    ResponderExcluir

Obrigada pela visita!. ♥♥
Tem um blog? Deixe seu link que visitarei sempre que possível.
Comentários ofensivos serão apagados!