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Machado de Assis – Vida e obras

Olá pessoal!
Sobre Machado de Assis ainda há muito pra falar… Eu achei essa biografia dele muito interessante e bacana. Eu percebi escrevendo esse quadro (Biografias)  que a maioria dos escritores levavam uma vida muito solitária e algumas até triste em suas histórias de vida e profissão. A de Machado me causou imensa ternura.
Espero que curtam ler assim como eu!

Daqui a pouco será crepúsculo. O sol, em fim de tarde de outono, estará brilhando morno sobre o Rio de Janeiro. Irá bater com sua luz nas janelas fechadas de um prédio antigo, no Cosme Velho. Ninguém o atenderá, porque o dono da casa, viúvo e solitário, terá saído para um último passeio e não vai voltar.
Machado morre de madrugada, pós cinco meses de dores e quatro anos de solidão. Perguntam-lhe se não quer fazer vir um padre. E ele, que não entra na igreja desde o dia de seu casamento, responde a custo, pois que a língua ulcerada lhe dói e pesa na boca: “Não. Isso seria uma hipocrisia“. E 29 de setembro, 1908. Faltam quinze minutos para as quatro da manhã.

O dia se faz. As cores transbordam, luminosas. As ruas se povoam. Em frente à casa do Cosme Velho, movimento de carros e pessoas, médicos, agentes funerários, empregados federais. Antes de escurecer, o morto deve estar pronto para ser velado no salão da Academia Brasileira de Letras.
A brisa de junho sopra frio no Morro do Livramento, aquele dia de 1839, Maria Leopoldina, lavadeira de profissão, começa a recolher as roupas do varal, quando as dores levaram-na ao leito. A casinha pobre ganha um novo habitante Joaquim Maria Machado de Assis. Joaquim, em homenagem ao padrinho. Maria, por causa da madrinha, dona da chácara do Livramento, Machado, que é o sobrenome dos avós maternos. Assis, o nome do pai.
Os anos corre depressa no Morro do Livramento, Joaquim vai vivendo um pouco no casarão da madrinha, ouvindo descrições de festas aristocrática narradas pelas senhoras que chegam de saias farfalhantes, outro pouco na casinha dos pais, conversando com Francisco sobre histórias de almanaque ou escutando a mãe contar-lhe passagem da infância em Portugal.
Depois de nascida a irmã, as conversas com a mãe vão ficando raras. A solidão ganha um peso maior para aquele menino gago e tímido.
Num curto espaço de tempo, morrem-lhe a mãe e a irmã.
A madrinha serve-lhe de esteio. Depois ganha uma madrasta: Maria Inês, mulata meiga e delicada, que sabe ler e cozinha com perfeição. Transmite ao pequeno todos os seus conhecimentos. Quando esgotados, sugere ao marido que coloque o menino na escola.
Em 1851, morre-lhe o pai. Maria Inês emprega-se como cozinheira no Colégio de São Cristóvão. Nas horas vagas faz balas, que o menino vende na rua. Um dia ele vai a padaria da sra. Gallot. Ela e seu empregado, ambos franceses, gostam do pequeno e lhe ensinam seu idioma. Mais tarde valendo-se desse aprendizado, traduziria o ensaio Literatura perante a Restauração, de Lamartine, o romance Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo, e várias outras obras de literatura francesa.

Vender doces na rua não condiz nem com a timidez nem com a fragilidade de Joaquim Maria. A madrasta encontra-lhe outro emprego, parece que de “sacrista” ou coroinha na igreja de Lampadosa – os biógrafos não conseguiram apurar com segurança. O certo é que, por volta dos quinze anos, tem um emprego,e, nas horas de folga, passeia pela cidade, demorando-se no Largo do Rossio, a espiar as vitrinas de livros. A livraria e tipografia de Francisco de Paula Brito é o que o atrai de modo especial, não pelos livros expostos mas pelas discussões que ali são travadas. Um dia o dono da loja o vê, hesitante, na soleira, eo anima a entar. Dá-lhe um emprego de aprendiz de tipógrafo e a oportunidade de estrear como poeta, publicando, em seu jornal A Mamorta, os primeiros versos de amor do jovem amigo: Meu Anjo.
Passado algum tempo, o trabalho na oficina do Largo do Rossio não tem mais mistérios; Machado quer subir mais um degrau. Em 1856, deixa Paula Brito e emprega-se na Imprensa Nacional, ainda na condição de aprendiz de tipógrafo, porém, com a esperança de melhor futuro.

Essa esperança fica abalada quando o diretor do jornal, Manuel Antônio de Almeida, o chama para passar-lhe uma reprimenda. Machado fora surpreendido lendo durante o expediente. Todavia, o sermão não chega a ser rude. Almeida que garantiria a imortalidade com o romance Memórias de um Sargento de Milícias,  compreende a sede intelectual do funcionário, percebe-lhe a sensibilidade. Tornando-o seu amigo e, sem saber, seu discípulo. 
Baseado nos diálogos literários com Manuel Antônio de Almeida, nos debates do círculo de A Marmota, que ele continua a frentar, e nas aulas de gramática e conhecimentos gerais com o Padre Silveira Sarmento, em 1858 Machado publica o ensaio O Passado, o Presente e o Futuro da Literatura, marco inicial de uma atividade crítica que se prolongaria até 1879 e se pautaria sempre pelo bom gosto, pela honestidade, pela agudeza da análise.
Ainda em 1858, Machado começa a colaborar no Paraíba, jornal de Petrópolis, e volta à firma Paula Brito na função de revisor de provas. Havia subido um degrau.
Em 1859 passa para o Correio Mercantil, em igual função. Ao sair pela segunda vez da casa de Paula Brito, não deixa, porém, o convívio do A Marmota, onde é sempre recebido com estímulo e afeto. Com Eleotério de Sousa funda, no mesmo ano, a revista Espelho, na qual começa sua brilhante carreira de cronista, registrada em vários periódicos do Rio de Janeiro.
Em 1860 consegue uma vaga de redator no Diário do Rio de Janeiro. Escrever em um jornal conceituado, dirigido a um público exigente, obriga-o a dar um tratamento cuidadoso e perspicaz aos fatos, força-o a apurar o estilo. À estréia do cronista segue-se  a do comediógrafo. Em 1861 apresenta duas peças medíocres: Hoje Avental, Amanhã Luva e Desencantos. A última representa a aplicação de uma teoria enunciada no opúsculo Queda que as Mulheres tem para os Tolos, também de 1861, segundo a qual os tolos vencem na vida, enquanto os talentosos fracassam. Mais tarde, retoma o tema em Memórias Póstumas de Brás Cubas e desenvolve – o no conto Teoria do Medalhão.
O teatro machadiano, que compreende treze peças, na maioria escritas no período de 1861 a 1866, é encarado como a parte mais fraca de sua produção literária. Assim como a poesia, constitui uma espécie de exercício, uma busca da forma mais adequada à expressão de seu pensamento.
É desse período a publicação no Diário do Rio de Janeiro, da tradução de Os Trabalhadores do Mar de Victor Hugo, apresentado pelo próprio Machado com a nota de 15 de março de 1866:“Começamos hoje a publicação do romance de Victor Hugo Os Trabalhadores do Mar, há tanto tempo anunciado na imprensa européia e ansiosamente esperado pelos admiradores do grande poeta”.
Entre a publicação de Crisálida, em 1864, e o sucesso da tradução de Os trabalhadores do Mar, em 1866, Machado vai levando a vida.

No ano seguinte conhece Carolina Augusta Xavier de Novais, cuja mãe morrera em Portugal. Carolina viera junto com os irmão Adelaide e Miguel, unir-se a Faustino, o outro irmão, poeta que vive no Rio de Janeiro. Está longe de ser bela. O rosto severo ostenta as marcas de 23 anos vazios de amor. Dedicara a vida à família e à leitura. Conhece bem os clássicos portugueses, é versada em gramática. De índole afetuosa, recatada e doce, cativa a todos os que a conhecem. Cativa Machado também.
Em princípio de 1867, os dois solitários se encontram junto à cabeceira de Faustino, que luta contar uma enfermidade. Encontram-se e amam-se. Assessor de diretoria no Diário Oficial, Machado, além do ordenado, ganha com as colaborações para vários periódicos. Tem talento, educação e um belo futuro. Mesmo assim, Adelaide e Miguel se opõem: não querem um mulato na família. Mas o obstáculo é vencido, e eles se casam em 12 de novembro de 1869.
“A pobreza foi o lote dos primeiros tempos de casados”, informa o Memorial de Aires (1908). Os proventos do marido são suficientes apenas para o necessário; nenhum luxo. Os ataques epiléticos voltam. Carolina tenta minorar-lhe o sofrimento. É a tempo companheira, enfermeira e secretária. Lê e revisa-lhe os manuscritos, corrigindo os possíveis deslizes gramaticais, sugerindo modificações. As primeiras obras revisadas por ela constituem a estréia de Machado em dois gêneros que ele maneja com mestria: o conto e o romance. No ano seguinte ao casamento, Machado publica Contos Fluminenses, seguidos do romance Ressurreição (1872) e de Histórias da Meia-Noite (1873). Juntamente com os romances A Mão e a Luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878), esses trabalhos constituem a chamada “fase inicial” de Machado, já revelando seu talento de narrador. Nos três últimos romances há um forte toque autobiográficos. Todos eles giram basicamente em torno do mesmo tema: ambição e orgulho, o drama íntimo de Machado com relação à madrasta. Em 1860 ele se muda de São Cristóvão para o centro, afastando-se cada vez mais de Maria Inês, a ponto dela ter de recorrer à caridade alheia para sobreviver. Em 1874 a mulata morre. Ferido na consciência, o enteado procura desabafar, projetando-se em seus personagens.
Em fim de 1878 Machado, acompanhado de Carolina, parte para Nova Friburgo, por recomendação médica.. A estada em Friburgo o faz rever certos valores e posições e enveredar por novos caminhos. De volta ao Rio de Janeiro, Machado inicia a elaboração de Memórias Póstumas de Brás Cubas, publicado primeiro em folhetim, depois pela Garnier, em 1881. Em 1882 publica o conto O Alienista, sátira  mais feroz que de Brás Cubas. O protagonista do conto, ao perceber a falência de seu raciocínio, incapaz de distinguir entre loucos e sãos, recolhe-se ao hospício e suicida-se mentalmente.

A loucura é um temas constantes na obra machadiana, ao lado dos problemas da dúvida (Esaú e Jacó), do bem e do mal (Singular Ocorrência), da ânsia da perfeição (Trio em Lá Menor, Cantiga de Esponsais), da autodefinição da personalidade (O Espelho) do despertar dos instintos na adolescência (Missa do Galo), tratados nos contos, e nos romances da maturidade.
Escrevendo sobre adultério , morte, sadismo, alienação. Machado não se demora em cenas chocantes. A sobriedade e a sutileza são características suas, numa época em que os realistas se desdobram em detalhes grosseiros. Ele prefere sugerir a declarar.
Ao contrário de Brás Cubas, Machado conquista a glória e o amor, tem amigos e discípulos, e só lamenta não ter filhos – porque teme transmitir não “o legado da nossa miséria”, mas a tragédia de sua doença, que o carinho da Carolina ajuda a suportar.
Em abril de 1897 Machado conduz a sessão inaugural da Academia Brasileira de Letras. Pena que a alegria desse momento seja empanada pela demissão de Machado. O Governo decide confiar a direção da Secretaria a um técnico. O escritor fica inativo por quase um ano, até que, em novembro 1898, é reincorporado como secretário do ministro da Viação.
A volta ao trabalho restitui-lhe a calma necessária para compor Dom Casmurro (1900), o mais pessoal de seus romances, uma análise profunda do ciúme.

Carolina ainda revisa o manuscrito de Dom Casmurro, mas não pode ler Esaú e Jacó. Está doente. Procura esconder do marido as dores de estômago, agravadas por uma receita errada fornecida pelo Farmacêutico. Em fim de 1903, não pode continuar ocultando. Ao começar o ano-novo, o casal parte para Nova Friburgo, na esperança de cura. Ali ficam um mês, ela esforçando-se por parecer melhor, ele esmerando-se para parecer confiante. Ambos sabendo que não haveria mais tempo. Em 20 de outubro de 1904, à beira de 35º aniversário de um casamento tranquilo. Carolina morre.
A maneira que Machado tem de falar da mulher sem cansar os amigos nem desvelar sua intimidade é contar episódios da vida conjugal como se fossem coisas de ficção. A ideia tarda em criar corpo.. Só em 1907, entre estudos de grego e expediente no Ministério da Viação, onde era diretor de contabilidade desde 1902, ele começa a escrever Memorial de Aires.
Um relato de ancião, a passo lento. Quadros da vida de Carmo e Aguiar (na verdade Machado e Carolina). Percalços da aventura amorosa de Fidélia e Tristão. E um final feliz. A vida é pacata, mas sorri. E o velho Machado faz as pazes com ela, um pouco antes de se despedir.

“Está morto: podemos elogiá-lo à vontade.”(Machado de Assis)

Fonte :Grandes Autores – Biografias – Faz parte de minha coleção Obras Primas- Editora Nova Cultural 2002. As imagens foram fotografadas do próprio livro – págs, 188, 391, 392,394,397 e 398.

A Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes inaugurou nesta quinta-feira (11 de julho de 2013) um novo site dedicado ao escritor Machado de Assis.
Visite e saiba mais em Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes

Marcia Lopes

Paulistana, bookaholic. Louca por livros de terror,Thriller psicológico, policial, jurídico... Mas não dispensa um bom romance. Também apaixonada por filmes e séries.

4 Comentários em “Machado de Assis – Vida e obras

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