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O livro das palavras – Cena de um dicionário vaidoso

Título: O livro das Palavras
Autor: Ricardo Azevedo
Edição: 2007
Editora: Editora do Brasil
ISBN: 9788510038140
Ano: 2007
Páginas: 79
A cena de um dicionário vaidoso que parte por aí disposto a comparar as palavras de dentro de si mesmo com as coisas da vida e do mundo, surgiu na minha cabeça faz tempo e acabou virando O livro das palavras, publicado em 1993, pela Editora Formato. O problema é que depois do livro pronto, fiquei cheio de dúvidas. Faltava nele alguma coisa e eu não sabia bem o quê. Deixei o tempo passar. Por sorte, tive oportunidade de retomar o texto em 2005 e é este trabalho que o leitor tem agora em mãos. Acho que o tempo me ajudou a compreender melhor o livro que tinha criado. Retrabalhei o texto inteiro, alterei cenas e diálogos, acrescentei capítulos e personagens novos e ainda tentei esclarecer certos temas importantes da história. Refiro-me principalmente aos diversos significados que uma mesma palavra pode adquirir; à possibilidade da existência de diferentes pontos de vista a respeito de um único assunto; e ainda à oposições como teoria versus prática; discurso versus ação; fatos concretos versus teses abstratas. Por exemplo, a noção abstrata “miséria” e a miséria mesmo, concreta e situada na vida de uma pessoa, costumam ser coisas completamente diferentes. É fácil fazer estatísticas, discorrer e teorizar sobre a miséria. É muito difícil senti-la na própria pele. Tomara que o leitor goste de como o livro ficou.
Ricardo Azevedo.

__ Sei tudo o que vocês sabem e muito mais! __ o dicionário de capa dura passeava pelas
estantes da casa cheias de livros remexendo suas duas mil e tantas páginas.
A biblioteca, feito trepadeira, saíra faz tempo do seu lugar de origem, invadindo corredores, salas,
quartos e até cozinha e varanda.
Das paredes brotavam novelas históricas de capa e espada, aventuras policiais, livro de ficção
científica e romances água com açúcar.
Textos profundos sobre a existência humana e livros encabulados de poesia. Crônicas. Publicações
elegantes de arte, repletas de gravuras coloridas.
Relatos de viajantes que percorreram o mundo, mapas, gibis, livros raros, livros pintados à mão,
livros…
O dicionário desdenhava:
__ Tanto faz se a biblioteca pegar fogo. Eu escapando, tudo bem…
Livros sempre viveram ocupados com os próprios assuntos. Ninguém ligava muito para o
dicionário.
O dicionário insistia:
__ Nem sei como tanta gente perdeu tanto tempo escrevendo tanto livro. Um dicionário que se
preza contém tudo que se possa imaginar.
Eu disse tudo. Todas as palavras. Não há nada num romance, num poema, num livro de Ciências
que não esteja aqui. Não há…
__ Ah!
__ Há?
__ Ah!…
Era um livro de histórias para crianças. Uma brochura velha, com a capa toda rasgada. Fora lido
por muitos. Emprestado, devolvido, perdido, encontrado.
__ Se der uma voltinha por aí, vai descobrir que sabe todas as coisas e, ao mesmo tempo, não
entende nada.
__ Eu?!
__ Claro! Entre uma palavra e o que ela quer dizer existe tanta diferença! O mundo é cheio de
surpresas, de acasos e outros inesperados. Quer ver? Por exemplo: sabe o que é água?
O dicionário bocejou com superioridade.
__ Água? Ora… água! Água é “…óxido diidrogênico. Um líquido incolor essencial à vida. H2O. A
parte líquida do globo terrestre”.
O velho livro de capa amassada sorriu gostosamente.
__ Líquido incolor! Acho que nunca viu uma planta depois de um dia de chuva. Nem um homem
sedento matando a sede.
__ Bem…
__ Por acaso já se molhou alguma vez na vida? Ficou ensopado? Encharcado?
__ Hum…
__ Se a resposta é não, desculpe…Quem nunca se molhou não pode falar em água!…

Marcia Lopes

Paulistana, bookaholic. Louca por livros de terror,Thriller psicológico, policial, jurídico... Mas não dispensa um bom romance. Também apaixonada por filmes e séries.

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