domingo, maio 25, 2014

Sol - Ildeu Geraldo de Araújo




Olá pessoal, hoje trago pra vocês um texto lindo e tocante do escritor de contos, Ildeu Geraldo de Araujo. Ildeu nasceu 1938, aposentado, escreve desde 2010, tem 50 anos de casado com a mesma mulher e se considera um homem muito feliz! Foi um prazer enorme conhecer seus escritos, portanto, para quem quiser saber mais e ler seus contos incríveis acessem:
Contos e Folhetins por Ildeu G. de Araujo  e espero que se delicie com esse texto Sol. E compartilhe conosco sua impressão! :)

SOL

Estava casado com Cleonice há 15 anos. Nossa vida transcorria numa normalidade que me agradava, pois sou uma pessoa tranquila, um tanto convencional; pelo menos, naquela época, achava que era. A objetividade de Cleonice combinava com meu temperamento e os dias se sucediam numa confortável monotonia. A decisão de ir a Buenos Aires obedeceu a razões práticas: eu tinha um negócio a tratar na cidade, a estada seria paga pela empresa, a única despesa seria a passagem para minha esposa.

Ir a um espetáculo de tango é uma obrigação para todo turista em primeira viagem à capital portenha. Olhei, com má vontade, o ambiente pretensamente luxuoso e sem dúvida decadente. Ocupamos uma mesa de pista, pedimos um espumante e aguardamos o início do espetáculo conversando amenidades.

Aos primeiros acordes do bandoneon, uma luz, vinda não se sabe de onde, refletiu no drapeado das cortinas, conferindo-lhe um tom bordeaux e alargando o espaço, como se as paredes recuassem. A plateia desapareceu, estava sozinho num imenso salão. Sol, emergiu do fundo da pista de dança e caminhou na minha direção, num passo ondulante que alternava uma perna vestida de negro e outra, muito alva, inteiramente desvelada pelo rasgo de sua saia. Ela olhou-me como nenhuma mulher jamais me olhou, nem antes nem depois daquele momento mágico. Um olhar de desejo, de ternura e de entrega. Com um gesto me atraiu para seus braços. Sem qualquer possibilidade de resistir, mergulhei no abismo daquele convite e evoluímos pelo salão numa coreografia rebuscada que nossos corpos conheciam desde a criação do mundo.

Dançamos durante horas, envolvidos pela melodia apaixonante dos violinos e bandoneons. Nossos corpos pulsavam em sintonia com o ritmo passional do tango, numa exaltação de desejo e de prazer. Éramos o único par no salão, os outros casais formavam uma roda, contemplando nossas evoluções. Aos poucos foram aderindo à dança, até que o salão ficou repleto. Sol levou-me para seu camarim, olhou-me no fundo dos olhos e disse com sua voz rouca: − Por que demoraste tanto? Venho aqui todos os dias à tua procura. − Hoje você me encontrou − beijei sua boca rubra, primeiro como quem prova uma fruta exótica, depois com a intensidade de uma paixão avassaladora.

Ficamos dias e noites num idílio sem trégua, a vida suspensa, envoltos na única realidade de um desejo sem medida seguido de um arrebatador prazer que reacendia um desejo maior ainda.

Uma tarde acordei sozinho num aposento vazio. Sol ocultara-se. Chamei por ela, gritei  seu nome, revirei as gavetas. Sentei-me na cama, que conservava as marcas da nossa paixão, ainda aturdido com aquela loucura, quando bateram na porta. − És o Sr. Pedro Faria? − Respondi sim com um gesto. O policial afastou-se deixando Cleonice se aproximar − vista a roupa, querido, vamos para casa. 





48 anos até novembro, paulistana, louca por livros de terror, Thriller psicológico, policial, jurídico... Mas não dispensa outros gêneros. Também apaixonada por filmes e séries.

5 comentários :

  1. Lindo demais o texto de Ildeu. A maneira como ele descreve o beijo em Sol é linda. Sensível, poética e com bastante maestria. Adorei!
    "Por que demoraste tanto? Venho aqui todos os dias à tua procura. − Hoje você me encontrou − beijei sua boca rubra, primeiro como quem prova uma fruta exótica, depois com a intensidade de uma paixão avassaladora."

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  2. Oi, gostei muito do seu texto. Veja e me diga o que achou do depoimento emocionante de ALINE quando completou 49 anos.
    http://www.youtube.com/watch?
    =dSagrGrBeCw&feature=share&list=UUBvY_tI9xN0wVbBqJMxSr6g .Alguma coisa em seu texto me fez lembrar dela. Abraços.

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  3. Fiquei perdidamente encantada pelo texto, ele escreve muito bem.
    Meu trecho favorito foi o mesmo da Edna
    "Por que demoraste tanto? Venho aqui todos os dias à tua procura. − Hoje você me encontrou − beijei sua boca rubra, primeiro como quem prova uma fruta exótica, depois com a intensidade de uma paixão avassaladora."

    Que perfeição*-*

    Beijos,

    ser-escritora.blogspot.com.br

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  4. Gostei do texto Márcia. Realmente muito bonito. Beijo!

    www.newsnessa.com

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